Carmelo Sagrada Família

Carmelo Sagrada Família

O Carmelo da Sagrada Família nasce de uma promessa: o seminarista Delfim Ribeiro Guedes, que fora enviado por seu Bispo, Dom Octávio Chagas de Miranda, para estudar em Roma,chegando lá, descobre que, por motivo de doença, não poderá ser aceito no Seminário. Foi então a Lisieux, e pediu a S. Teresinha a graça da Ordenação Sacerdotal, prometendo trabalhar para a fundação de dois Carmelos. Voltando a Roma, foi aceito no seminário, e anos depois, ordenado Sacerdote.

Depois de algum tempo, já como Cônego, trabalhando em Pouso Alegre, decide pôr mãos à obra. Com um grupo de amigos, consegue uma excelente casa que serviria para dar início ao Carmelo; os benfeitores desejavam que este fosse dedicado à Sagrada Família, e que as fundadoras viessem do Carmelo de Campinas.

Só depois de tudo “alinhavado” é que Cônego Delfim fala com Dom Octávio sobre seu projeto, pedindo sua licença e apoio. No entanto, o que ele ignorava é que estava para ser nomeado Bispo de Leopoldina. D. Octávio, que estava a par disto, mesmo consciente de que a carga da responsabilidade toda cairia sobre seus ombros, aceita a ideia, e vai a Campinas, pedir a D. Paulo de Tarso Campos seu assentimento. Obtido este, dirige-se à Priora do Carmelo de Santa Teresinha. Esta, por sua vez, acalentava o sonho de uma fundação, como “sinal” de que Deus estava contente com o Carmelo de Campinas. Com alegria, embora prevendo a dor da separação de suas filhas, Madre Ângela e sua Comunidade aceitaram o pedido. É escolhida como Priora da fundação Madre Maria Imaculada da Santíssima Trindade, acompanhada de Irmã Maria Cristina do Espírito Santo, Irmã Maria Conceição das Cinco Chagas e Irmã Maria Madalena do Precioso Sangue.

O povo de Pouso Alegre e dos arredores foi preparado por Cônego Delfim, conscientizando-os da beleza e valor da vida contemplativa numa Diocese.

Por isso, as Irmãs foram recebidas com muito carinho e devoção, no dia 25/10/1943. Tudo foi preparado antecipadamente, com esmero e dedicação.

Naquela noite, Madre Maria Imaculada foi diante do Santíssimo Sacramento, e pediu a Jesus só uma graça: que naquele Carmelo que nascia sempre reinasse a caridade.

Da esquerda para a direita: Ir. M. Conceição - Mãezinha
Ir. M. Cristina e Ir. M. Madalena

No dia 26/10/1943, fez oficialmente a fundação, com Missa solene, bênção do Santíssimo e encerramento da clausura. Madre Maria Imaculada fez a Consagração da Comunidade a Nossa Senhora, e elegeu-A como Priora perpétua do nascente Carmelo.

Três meses depois já começam a surgir vocações para a pequena Comunidade.

A primeira Tomada de Hábito ocorreu no dia 02/02/1945: Irmã Maria Teresinha do Ssmo. Sacramento, que anos depois, seria a fundadora do Carmelo de São José, em Campos, RJ.

Da esquerda para a direita: Ir. M. Madalena - Mãezinha
Ir. M. Teresinha - Ir. M. Conceição - Ir. M. Cristina

Dom Delfim, embora em Leopoldina, faz-se sempre presente na vida do novo Carmelinho, e foi o primeiro a pregar um retiro para as Irmãs, em 1946. Dom Octávio, Bispo de Pouso Alegre, ofereceu sempre seu apoio e sábia orientação às Irmãs. Sempre se fazia presente nas grandes solenidades litúrgicas e festas da nova Comunidade.

Dom Delfim

Poucos anos depois, com as dificuldades próprias de todo início de fundação, as Irmãs que vieram de Campinas, uma a uma, foram retornando. Embora sofrendo, Madre Maria Imaculada, que desde o terceiro ano de fundação é chamada “oficialmente” por todas as Irmãs de “Mãezinha” – título que reconhece nela a doação, a firmeza e o amor maternal – não esmorece e continua, com alegria e perseverança, em seu posto.

O grupo inicial de benfeitores continua fiel, e cada vez mais comprometido, unindo-se a ele outras generosas pessoas.

Igreja do Rosário anexada ao Carmelo provisório

A casa torna-se pequena diante das vocações que vão surgindo, além do que, por ser construção antiga, necessita de grandes reparos, de tal forma que o telhado ameaça desabar. Não podendo gastar, no momento, com a reforma da casa, para economizar meios para a construção do prédio definitivo, as Irmãs alojam-se no porão da casa. São muitos os sacrifícios, mas tudo era assumido com alegria e senso sobrenatural, oferecendo todos os incômodos e privações pela Igreja, pela cidade, e pela paz no mundo.

Em 1954, inicia-se a construção do sonhado prédio regular, próprio para a vida carmelitana. D. Octávio, ao ver o projeto da construção, diz à Mãezinha: “Madre, como fazer tudo isto sem dinheiro? É um absurdo! Querem construir um Vaticano!”

Paredes do primeiro piso, em ponto de fazer a laje.

Meios? A Providência Divina, a oração e o sacrifício, o trabalho ininterrupto de “formiguinha” das Irmãs e o empenho da comissão “pró-construção do Carmelo.” Campanhas dos benfeitores, correspondência com todo o Brasil – o Menino Jesus esmoler, que ia batendo de porta em porta pedindo auxílio para a construção do seu Carmelo –, pesquisas de preço, compras em grande quantidade para obter maiores descontos, pedidos dirigidos a pessoas influentes para frete gratuito dos materiais, tudo o que pudesse auxiliar foi posto em ação.

Entre os principais benfeitores – e aqui temos no coração todos aqueles que nos ajudaram, mesmo que seja somente uma Ave-Maria, e seria impossível citar todos, como desejaríamos, mas, como sempre dizia Mãezinha: “Está tudo registrado no céu!” – sobressaem Dr. Ben-Hur, que fez o projeto do prédio e acompanhou a construção gratuitamente, Sr. João e D. Santa Andare e sua família, Paulo Silva, Dr. Jésus e D. Maria Auxiliadora Méier Pires, D. Iracema Fagundes, Sr. Agenor Emboaba, Dr. Vasco, Dr. João Paiva, Sr. Junqueira e D. Eva e principalmente, Sr. Fernando Côrtes, que pôs em segundo plano seus próprios interesses e se fez presente de forma contínua na construção, velando por todos os detalhes. Preocupava-se com todos os aspectos da vida das Irmãs, o que lhe valeu o título de “Pai Fernando.”

De grande importância foi também o papel de pessoas que, mesmo sem riquezas materiais, colocavam ao dispor das Irmãs seu trabalho gratuito, como Sr. Geraldo Chaves, Sr. Benedito Miguel da Costa, Sr. Ferreira, e tantos voluntários pedreiros, pintores, carpinteiros... Figura de destaque, e que acompanhou as Irmãs desde o Carmelo velho foi o “Vô Quinista”: Temistocles Chander, húngaro, e que sabia fazer de tudo um pouco: agricultor, pedreiro, encanador... Morava na construção e depois da mudança das Irmãs, na “garagem”, que ele chamava “seu céu”. Mãezinha chegou a construir-lhe uma casinha, mas ele se recusou a morar nela, dizendo que Jesus nasceu numa manjedoura...

E em meio a tudo isto, Mãezinha não se descuidava da vida espiritual de suas filhas, da gratidão aos amigos e benfeitores, da participação em suas dores e alegrias.

Finalmente em 29 de setembro de 1957, realizou-se a transladação das Irmãs para o novo Carmelo. A cidade participou em peso. D. Octávio, diante do prédio, vendo realizado o ousado projeto de Mãezinha, disse: “Presenciamos um milagre. Realmente, o dedo de Deus está aqui!”


Rua Comendador José Garcia
À espera da procissão.

Mãezinha durante a transladação.

No entanto, faltavam ainda a Capela, a Casa das Irmãs Externas, os muros, a organização do quintal e da frente do Carmelo.

Já em 1958, inicia-se a construção da Capela. O projeto foi feito pelo Dr. Benedito Calixto. Para esta construção, Mãezinha procurou tudo de bom e do melhor, pois dizia sempre: “Jesus merece!” Gesto de grande carinho e respeito por Jesus no Santíssimo Sacramento foi feito por Pai Fernando: lavou, ele mesmo, todos os tijolos que seriam postos na parede onde ficaria o Sacrário.

Capela ainda sem o acabamento, mas já em uso.

A construção foi lenta, com algumas pausas para pagar dívidas e angariar meios para recomeçar. Desta forma, só em 1968 foi colocado o mármore, em 1975, os últimos detalhes. Além do que, outras necessidades eram prementes: a construção dos muros, para poder aumentar o restrito espaço da clausura das Irmãs. As obras iniciaram-se em maio de 1965, terminando em 10 de setembro de 1966, dia de grande festa para as Irmãs, quando puderam “esticar as pernas” no amplo quintal, pois antes disto, a clausura se restringia praticamente ao prédio principal.

Em 1960, Pouso Alegre ganha um novo bispo: Dom José d’Ângelo Neto. Seu carinho, atenção, orientação firme e paternal para com as Irmãs mereceu-lhe o título de “Pai Bispo.” Sempre celebrava no Carmelo nas principais solenidades. No Natal, fazia-se presente sempre, dizendo que éramos sua família.

Em dezembro de 1966, iniciou-se a construção da casa das Irmãs Externas, sendo finalizada em março de 1969, e Irmã Maria Lúcia da Santíssima Eucaristia, nossa primeira Irmã Externa, pôde iniciar oficialmente sua nobre missão.

Em 1977, finalizaram-se as obras da frente do Carmelo. No início da década de 1980, foi a vez do quintal: para calçar as pistas, Pai Fernando fabricou as bloquetes, para ter economia e qualidade. Construiu-se uma linda gruta de Nossa Senhora de Lourdes, cuja imagem foi entronizada no 41º. aniversário da fundação do Carmelo. Nesta mesma época realizou-se a ampliação da cozinha, enfermaria e a construção do cemitério.

Para coroar tudo, realizou-se no dia 29/10/1984 a Sagração de nossa Capela, por Dom José d’Ângelo Neto, concelebrando 15 sacerdotes.

Capela finalizada.

Assim como a construção física, a humana e espiritual também progredia. Cada Profissão Solene, cada Jubileu de Prata ou de Ouro das Irmãs era vivido com intensidade espiritual e grande alegria fraterna. As Irmãs participaram sempre intensamente da vida da Igreja e da Ordem. Acompanharam atentamente o Concílio Vaticano II, e com espírito de fé, aderiram a tudo o que a Igreja pedia. Participaram sempre dos Encontros promovidos pela Ordem, para atualização de nossas Constituições e aprofundamento do carisma teresiano.

Foram vivenciados com grande solenidade e participação do povo os centenários de nascimento de Santa Madre Teresa de Jesus, em 1982, de morte de São João da Cruz em 1992 e de Santa Teresinha em 1997.

A Capelania do Carmelo está, desde há muito, sob a responsabilidade dos Padres Pavonianos, que de forma generosa, fraterna e pontual celebram a Missa conventual e participam de nossas novenas e solenidades.

Em 1979, a pedido do Provincial da Ordem, Irmã Maria Stella da Eucaristia e Irmã Maria Teresa de Jesus foram auxiliar o Carmelo de Marília, SP, por três anos, como Priora e Subpriora, respectivamente. Outras Irmãs, principalmente as Externas, se revezaram, na tentativa de reerguer aquele Carmelo, que, infelizmente, foi suprimido.

E em 1985, chega, também por intermédio do Provincial da Ordem, o pedido de Dom Carlos Alberto E. G. Navarro, bispo de Campos dos Goytacazes, RJ, da fundação de um Carmelo naquela sofrida Diocese, dilacerada pelo cisma dos Tradicionalistas. As Irmãs rezaram e aceitaram o pedido, de forma que em 24/08/1986, a Comunidade é dividida: nove Irmãs foram para a nova missão. Mãezinha procurou preparar tudo, espiritual e materialmente para a nova fundação. Sacerdotes, amigos e benfeitores do Carmelo acompanharam as Irmãs em dois ônibus, na longa viagem. Excetuando a mobília, tudo o necessário para a nova fundação foi preparado e enviado com grande carinho pelo Carmelo da Sagrada Família, com a ajuda de amigos e benfeitores.

Mãezinha, no centro, com as fundadoras do Carmelo de Campos.

Fachada do Carmelo de Campos.

Em 20 de janeiro de 1988 falece, após uma vida de doação total a Deus e ao próximo, a fundadora do Carmelo da Sagrada Família, Madre Maria Imaculada da Santíssima Trindade. Comoção geral na Arquidiocese e mesmo fora dela: Bispos, sacerdotes, amigos e benfeitores vieram prestar sua última homenagem àquela que “conhecia como ninguém a população de Pouso Alegre, na intimidade de sua vida, porque a ela é que muitos e muitos se dirigiam no momento de suas aflições” (Palavras de D. José, na homilia da Missa de corpo presente).

Nossa Mãezinha troca a terra pelo céu, mas não deixa de continuar ajudando quem recorria à sua intercessão: pouco a pouco, pessoas começaram a rezar junto ao muro do Carmelo, próximo ao local onde Mãezinha estava sepultada e alcançavam graças por sua intercessão. Este movimento espontâneo do povo levou as Irmãs a pedir a introdução da Causa de Canonização de sua Fundadora.

Nestes trilhos, o Carmelo da Sagrada Família celebra, com gratidão a Deus e a Virgem Maria, os seus 70 anos de fé e de amor.

 

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